Num primeiro momento todos riem. Num segundo momento todos choram.
Uma palavra: fantástico!
Mais do que um lugar de encontro... Mais do que um lugar de partilha... Mais do que um lugar...

De tanto lidar com a morte e tão pouco com os jornalistas, a funcionária de bata branca do Hospital Josina Machel parou de empurrar a maca onde jazia uma das vítimas do encontro de anteontem com o Papa no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, e sorriu ao ver os repórteres à entrada do elevador metalizado.
Recuperou a compostura num ápice e continuou a deslizar a maca coberta com um lençol banco onde sobressaía uma coroa de flores vermelhas e brancas. Atrás, um homem vestido de verde-água, máscara da mesma cor e luvas cirúrgicas, empurrava o cadáver da outra vítima dos violentos atropelos à entrada do recinto onde Bento XVI se reuniu com a juventude angolana. Também coberta de branco, com flores azuis e brancas. Não se pense que as flores são uma boa prática do principal hospital da capital de Angola.
As coroas foram compradas depois de o Papa ter referido a morte das jovens, no encontro de ontem à tarde, na esplanada da Cimangola (ver caixa). Pouco depois, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone (a segunda figura da Igreja) e o ministro angolano das Relações Exteriores, Assunção dos Anjos, passavam pelo "Josina Machel" para reconfortar a família de uma das vítimas e visitar os dois feridos dos mesmos incidentes ainda internados.
Até ontem, a existência das vítimas tinha sido prudentemente ocultada nos discursos oficiais e, consequentemente, omitidas dos intermináveis blocos noticiosos que a governamentalizada TPA - Televisão Pública de Angola - dedica à visita do Sumo Pontífice ao país. Mas o caso saltou para a imprensa internacional e nem o poder em Luanda nem sequer o Vaticano puderam mais ignorá-lo.
Um dia depois da tragédia, vieram as "homenagens", como lhe chamou Assunção dos Anjos, às vítimas. Uma das quais, referiu o cardeal Bertone, até "era catequista na igreja de São Pedro", facto que o JN não conseguiu confirmar naquela paróquia do bairro do Prenda.
As duas raparigas perderam a vida em conjunto, mas tiveram sortes diferentes depois da morte. Celina Kiala, 22 anos, trazia consigo documentos pessoais e um telemóvel, quando chegou à morgue do hospital.
Da outra vítima nada se sabe. "Ninguém reclamou o cadáver, nem sequer sabemos se tem família", disse, ao JN, o coordenador do projecto Luacute - Atendimento Humanizado, Jorge Manuel, em curso naquela unidade de saúde. E porque, sobretudo em Luanda, é preciso ter sorte até na morte, os dois corpos foram retirados dos decrépitos frigoríficos da morgue hospitalar e transferidos para a "sala de trânsito" onde, segundo Manuel, "os frigoríficos são de melhor qualidade", o que significa que o cadáver anónimo ainda terá 30 dias para ser reclamado.
Depois desse período, será enterrado numa vala comum.
in Jornal de Notícias
O Papa começara a visita pelos Camarões, no passado dia 17 de Março, tornando-se assim o terceiro chefe da Igreja Católica a visitar África nos tempos modernos.
A 11ª viagem apostólica de Bento XVI, desde cedo marcada pela polémica gerada em volta das suas declarações sobre o uso do preservativo no combate à SIDA, apresentou uma visão realistas dos problemas de África – guerras civis, pobreza, tribalismo e rivalidades étnicas, má governação, corrupção e violação de direitos humanos, desigualdade entre sexos e marginalização das mulheres, práticas desumanas e exploração dos recursos naturais por uma globalização injusta -, mas procurou acima de tudo deixar uma mensagem de esperança.
Para o Papa, África deve reencontrar o seu lugar mundo e ser, no século XXI, um farol para a Igreja e para toda a humanidade. "Reconciliação, justiça e paz" são as palavras que serviram de fio condutor da viagem e servem como uma espécie de "até já" para o II Sínodo dos Bispos africanos, que decorrerá em Outubro, no Vaticano, precisamente sobre esses temas.
No seu último discurso, em Angola, Bento XVI disse que, apesar das resistências e os obstáculos, o povo angolano está construir o seu futuro na senda do perdão, justiça e solidariedade.
O Papa manifestou-se feliz por "ter conhecido de perto um povo corajoso e decidido em renascer". Neste contexto, pediu que a justa realização das aspirações fundamentais das populações mais necessitadas constitua a preocupação principal de quantos ocupam cargos públicos.
"Se me permitissem um apelo final seria para pedir que a justa realização das aspirações fundamentais das populações mais necessitadas constitua a preocupação principal de quantos ocupam cargos políticos públicos visto que a sua intenção, estou certo, é desempenhar a missão recebida não para si mesmo mas em vista do bem comum", apontou.
"O nosso coração não pode estar em paz, enquanto virmos irmãos sofrerem por falta de alimento, de trabalho, de um tecto ou de outros bens fundamentais", referiu ainda, apelando à "solidariedade entre as gerações, países e continentes, que dê origem a uma partilha cada vez mais equitativa das riquezas da terra entre todos os homens".
Aos africanos, Bento XVI pediu coragem na construção da paz, cumprindo gestos de perdão e a trabalhar pela reconciliação nacional, "para que jamais prevaleça a violência sobre o diálogo, o medo e o desânimo sobre a confiança, o rancor sobre o amor fraterno".
Por outro lado, disse estar "grato a Deus por ter encontrado uma Igreja viva e, apesar das dificuldades, cheia de entusiasmo, que soube carregar a sua cruz e a dos outros, testemunhar perante todos a força salvífica da mensagem evangélica".
"Deus abençoe Angola! Abençoe cada um dos seus filhos e filhas! Abençoe o presente e o futuro desta querida Nação. Ficai com Deus", concluiu.
Já o Presidente da República de Aangola, José Eduardo dos Santos, declarou que a visita do Papa ultrapassou de longe as expectativas, sublinhando que as suas palavras constituem um sindal de esperança e encorajamento para que toda a nação angolana prossiga na senda da consolidação da paz e reconciliação nacional.
À imagem do que o Papa fizer este Domingo, José Eduardo dos Santos lamentou a morte de duas jovens à entrada do Estádio do Coqueiros, no passado dia 21.
O Papa partiu com um ligeiro atraso, cerca das 10h20 locais (menos uma hora em Lisboa). No tradicional telegrama que o Papa envia ao Presidente da Itália, ao partir em viagem, Bento XVI fala do "vivo desejo de encontrar os irmãos na fé e os habitantes" de Angola e Camarões.
Quarta-feira, Bento XVI celebrará uma missa privada na Capela da Nunciatura Apostólica de Yaoundé. Em seguida encontrar-se-á com o Presidente da República dos Camarões, Paul Biya, no Palácio da Unidade, e terá ainda um encontro com os Bispos do país. Mais tarde, presidirá na Basílica Maria Rainha dos Apóstolos à oração das I Vésperas da solenidade de São José, com a participação de bispos, sacerdotes, religiosos, seminaristas, diáconos, movimentos eclesiais e de representantes de outras confissões cristãs.
O primeiro Papa dos tempos modernos a viajar até África foi Paulo VI, que visitou o Uganda de 31 de Julho a 2 de Agosto de 1969. Após esta histórica visita, coube a João Paulo II percorrer praticamente todo o território africano, em 16 viagens apostólicas entre 1980 e 2000.
O falecido Papa polaco passou por 42 países e pelo departamento francês da Reunião, tendo mesmo repetido a visita no caso de 7 países. Começou pelo Zaire, Congo-Brazzaville, Quénia, Gana, Alto Volta (actual Burkina Fasso) e a Costa do Marfim, ao longo de dez dias, em 1980.
A última passagem de um Papa por território africano aconteceu no ano 2000, aquando da peregrinação jubilar de João Paulo II ao Monte Sinai, no Egipto.
Nove anos depois, acontece a terceira visita papal, para o território camaronês (1985 e 1995, João Paulo II), e a segunda para o país lusófono.
Esta viagem culmina, de forma mais visível, a constante preocupação de Bento XVI com a Igreja e a sociedade africanas.
No Domingo, o Papa lançou a sua viagem a Angola e Camarões, que irá decorrer até 23 de Março, afirmando que com esta visita tenciona “abraçar todo o continente africano”.
Em particular, disse, “penso nas vítimas da fome, das doenças, das injustiças, dos conflitos fratricidas e de qualquer forma de violência que infelizmente continua a atingir adultos e crianças, sem poupar missionários, sacerdotes, religiosos, religiosas e voluntários”.
Atenção constante
Na intenção de oração missionária para o mês de Fevereiro, o Papa rezava para que a Igreja na África encontrasse caminhos e meios adequados para promover – de modo eficaz – a reconciliação, a justiça e a paz, segundo as indicações da II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos.
Este evento, que decorrerá de 4 a 25 de Outubro próximo, terá como tema “A Igreja na África a serviço da reconciliação, da justiça e da paz”, justifica a ida de Bento XVI aos Camarões, onde irá publicar o instrumento de trabalho deste Sínodo.
São várias as ocasiões em que, desde o início do pontificado, o Papa deixou apelos e dedicou reflexões ao continente africano. Num encontro com o clero de Roma, no dia 13 de Maio de 2005 - menos de um mês depois da sua eleição – Bento XVI falou sobre a extraordinária riqueza humana e espiritual da África, sem deixar de ressaltar as responsabilidades da Europa.
“A África é um continente de grandes possibilidades, de grande generosidade por parte do povo, com uma fé viva impressionante. Mas devemos confessar que a Europa exportou não somente a fé em Cristo, mas também todos os vícios do Velho Continente. Exportou o sentido da corrupção, exportou a violência que agora está devastando a África. E devemos reconhecer a nossa responsabilidade em fazer de modo que a exportação da fé, que responde à íntima expectativa de todo homem, seja mais forte do que a exportação dos vícios da Europa”, disse então.
Ainda nos primeiros meses de pontificado, no Angelus de 3 de Julho de 2005, Bento XVI aproveitou a ocasião do então iminente G-8 da Escócia para exortar a comunidade internacional a não esquecer as populações africanas, atingidas pela pobreza e por conflitos: “De coração, desejo sucesso a essa importante reunião, fazendo votos de que ela leve a partilhar solidariamente os custos da redução da dívida externa, a adoptar medidas concretas para a erradicação da pobreza, e a promover um autêntico desenvolvimento da África.”
No seu livro “Jesus de Nazaré”, Joseph Ratzinger fala das parábolas do Evangelho, em especial a do Bom Samaritano, que é apresentado como um “ícone da compaixão”, através do qual Cristo ensina que “não se trata já de estabelecer quem, entre os outros, é o meu próximo, mas trata-se de mim: eu devo tornar-me o próximo”.
A actualidade da parábola é, segundo o Papa, “óbvia”: os povos da África, caídos por terra, “olham-nos de perto”. “Nós levamos-lhes o cinismo de um mundo sem Deus, onde apenas contam o poder e o lucro”, lamenta.
Estes foram apelos e observações renovados em várias outras ocasiões, em particular, nos discursos ao Corpo diplomático, nas audiências aos prelados africanos em visita “ad Limina”, e nas mensagens para o Dia Mundial da Paz.
No encontro de 2009 com os diplomatas credenciados junto da Santa Sé, Bento XVI falava já na “alegria de me encontrar com muitos irmãos e irmãs de fé e humanidade que vivem na África”.
“Na expectativa desta visita, que tanto desejei, peço ao Senhor que seus corações se abram para acolher o Evangelho e vivê-lo com coerência, construindo a paz e lutando contra a pobreza moral e material”, indicou.
Segundo Bento XVI, em África é importante “reservar uma atenção especial à infância: vinte anos depois da adopção da Convenção sobre os direitos das crianças, elas ainda são vulneráveis”. O Papa pediu aos responsáveis políticos que “tomem todas as medidas necessárias para resolver os conflitos actuais e colocar fim às injustiças que os provocaram”.
Entre as várias conferências episcopais que visitaram o Vaticano desde Abril de 2005 conta-se a dos Camarões, recebida em Março de 2006. Na ocasião, Bento XVI lembrou o aniversário da Exortação apostólica pós-sinodal “Ecclesia in África”, assinada em Yaoundé em Setembro de 1995, pelo Papa João Paulo II. “Este momento de graça, vivido na fé e na esperança, revelou uma real solidariedade pastoral orgânica em todo o continente africano, manifestada sobretudo pelos trabalhos fecundos e estimulantes da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos”, disse.
O Papa falou na necessidade de “fazer penetrar o Evangelho em profundidade nas culturas e nas tradições do vosso povo, caracterizadas pela riqueza dos seus valores humanos, espirituais e morais, sem deixar de purificar essas culturas, através de uma necessária conversão de tudo o que, nelas, se opõe à plenitude da verdade e da vida que se manifesta em Jesus Cristo”.
“Isto exige também que seja anunciada e vivida a Boa Nova iniciando sem receio um diálogo crítico com as culturas novas relacionadas com o emergir da globali-zação, para que a Igreja lhes transmita uma mensagem cada vez mais adequada e credível, permanecendo fiel ao mandamento que recebeu do seu Senhor”, acrescentou.
Sínodo
D. Damião Franklin será um dos secretários especiais do II Sínodo dos Bispos da África, a realizar em Outubro próximo. Para o Arcebispo de Luanda, esta reunião magna será um momento fundamental para uma “caminhada em conjunto” de todas as forças vivas da Igreja, a nível local e a nível universal.
“Há necessidade de se reflectir, de orar, de sugerir estratégias concretas”, refere à ECCLESIA.
O prelado admite que “África é o continente mais vulnerável” do ponto de vista institucional, com muitos conflitos militares, pelo que a Igreja “quer capacitar os próprios africanos” para resolver estes conflitos e os “problemas de desenvolvimento”, com destaque para o avanço das pandemias.
Quanto à Igreja, o Arcebispo admite que o crescimento de vocações religiosas e sacerdotais não deve fazer esquecer a vocação dos leigos. “Nós, como responsáveis, estamos atentos, porque esta é uma fase e temos de estar preparados para uma fase mais crítica”, admite.
Sobre a questão litúrgica, D. Damião Franklin indica que o “génio africano” deve ter o seu lugar, ainda que com “ordem e disciplina”.
Estatísticas
Em África, os católicos cresceram mais de 3% nos últimos anos, o que ultrapassa o crescimento da população total (2,5%). Estima-se que em 2050, três países africanos estejam entre as dez maiores nações católicas de todo o mundo: a República Democrática do Congo (97 milhões de católicos), o Uganda (56 milhões) e a Nigéria (47 milhões).
A “explosão” do catolicismo na África subsaariana, ao longo do século XX, pode ser considerada como um dos maiores sucessos missionários na história da Igreja - embora deva ser sempre lida com atenção, como se lê neste dossier -, já que de uma população de 1,9 milhões de católicos, em 1900, se passou para 139 milhões.
África é mesmo um dos continentes em que se regista maior crescimento no número de padres, com um aumento na ordem dos 25% no período de 2000 a 2007.